lundi 11 mars 2013

A historia do Fado

Este artigo também pode ser consultado em francês aqui.

A exposição História do Fado occureu de 5 de Fevereiro a 9 de Março na Residência André de Gouveia na Cité Universitaire de Paris. A exposição é o fruto de um trabalho conjunto entre o Instituto Camões - Embaixada de Portugal e o apoio a difusão da Fundação Calouste Gulbenkian.





Residência André de Gouveia

Primeiro chamada Casa de estudantes portugueses, a residência foi renomeada em 1974 em homenagem a um grande humanista português do século XVI que também foi reitor da Sorbonne.
Em 1960, vários patrocinadores desenvolvem um projecto de construção de casa nacional, que seja um local para actividades culturais abertas a todos os alunos, mas também para a comunidade portuguesa em Paris.
Iniciada em 1962, a construção foi liderada pelo arquitecto José Ribeiro Português-Sommer, segundado por Henri Crepet.
O edifício, inaugurado em 1967, foi financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian.
Nascido de uma iniciativa privada, a residência dispõe de um teatro de 130 lugares e estúdios de música.





O Fado é um género performativo que integra musica e poesia, desenvolvido em Lisboa no segundo quartel do século XIX, como resultado de um processo de fusão multicultural que envolveu danças afro-brasileiras recem-chegadas à Europa, uma herança de géneros locais de canção e dança, tradições musicais de zonas rurais trazidas por vagas sucessivas de imigração interna e os padrões cosmopolitas da canção urbana do inicio do século XIX.




Cultivado inicialmente nos bairros das classes mais baixas da cidade, expandiu-se gradualmente para outros contextos geográficos e sociais. E amplamente reconhecido pela comunidade de Lisboa como uma parte significativa da sua herança cultural, reflectindo, através das suas praticas e representações, o processo e constituição da cidade moderna ao longo dos últimos dois séculos.





O canto do Fado esta intrinsecamente ligado à execução de um instrumento musical tipicamente português, a Guitarra Portuguesa, instrumento em forma de pêra da família das Citaras, com doze cordas de metal, que reúne um significativo repertório solístico mas que e sobretudo utilizado para o acompanhamento da voz, em associação com a guitarra acústica.






Historicamente, o Fado é o resultado de um processo de hibridização que envolveu uma dança cantada afro-brasileira do mesmo nome documentada por fontes do inicio do século XIX, varias tradições populares locais de canção e dança, um género cosmopolita de canção urbana sentimental do inicio do século XIX (modinha) e diversas tradições musicais trazidas das regiões rurais por imigrantes atraídos à capital.






O Teatro de Revista, género de tempo ligeiro tipicamente lisboeta nascido em 1851, cedo descobrira as potencialidades do Fado que, a partir de 1870, integra os seus quadros musicais para ali se projectar junto de um publico mais alargado. O contexto social e cultural de Lisboa com seus bairros típicos, sua boémia, assume protagonismo absoluto no teatro de revista. Ascendendo aos palcos do teatro o Fado animara a revista, estruturando-se novas temáticas e melodias. No teatro de revista, com refrão e orquestrado, o Fado será cantado quer por famosas actrizes, quer por fadistas de renome, cantando o seu repertório.






Para a classe operaria que a partir de 1860 se começa a estruturar, oriunda de varias zonas rurais do interior do pais e que acorre a Lisboa em busca de trabalho na industria emergente, o Fado vai transformar-se de um extenso proletariado urbano. Associando-se à festa popular, o Fado ganha dimensão numa constelação de recintos que incluem as hortas, retiros e restaurantes, taurodromos, locais de patuscadas e convívio, nos arredores da cidade, às portas de Lisboa, mas também na sua intrincada malha urbana, espaços lúdicos que a aristocracia boémia progressivamente partilhara.






Em 1910 a canção urbana de Lisboa irrompe nas artes plásticas com a obra "O fado" de José Malhoa, que desde logo assumira uma importância central na iconografia do género.






Nos alvores do século XX publicavam-se as primeiras obras de carácter historiográfico sobre o Fado e, a partir de 1910, um conjunto de publicações periódicas consagradas ao tema, atestava a consagração popular desta arte performativa. Paralelamente uma vasta rede de recintos, passava a incorporar o Fado na sua programação - fixando elencos privativos que muitas vezes se constituíam em embaixadas ou grupos artísticos para efeitos de digressão - sedimentando-se também a relação do Fado com os palcos teatrais, com a integração do Fado nos quadros musicais da Revista ou das operetas.





Embora os primeiros registos discográficos produzidos em Portugal datem do inicio do século XX, o mercado nacional era ainda, nesta fase, bastante incipiente, uma vez que a aquisição quer de gramofones, quer de discos, acarretava custos bastante elevados. Efectivamente, depois da invenção do microfone elétrico, em 1925, reunir-se-iam as condições fundamentais às exigências de captação do registo sonoro. Decorrendo, no mesmo período, o fabrico de gramofones a preços cada vez mais competitivos, estavam criadas, junto de uma classe média, as condições mais favoráveis de acesso a este mercado.

Com a publicação do Decreto-Lei de 6 de maio de 1927, seriam introduzidas alterações profundas nos contextos performativos do Fado, regulamentando-se a censura prévia das letras, a definição de recintos próprios para actuações de Fado, dentro de horários pré-definidos, a obrigatoriedade de posse da carteira profissional para os artistas e a gradual implementação do traje de cerimonia nas actuações, entre muitas outras transformações.







Gradualmente, tenderia a ritualizar-se a audição de fados em Casas de Fados, locais que iriam concentrar-se nos bairros históricos da cidade, sobretudo a partir dos anos 30. Estas transformações na produção do Fado iriam necessariamente afasta-lo do domínio do improviso, consolidando-se a profissionalizaçao de interpretes, autores e músicos, que passavam a actuar numa rede alargada de recintos para públicos cada vez mais diversificados.





A divulgação internacional do Fado começara a esboçar-se a partir da década de 30, em direcção ao continente africano e ao Brasil, destinos preferenciais para actuação de artistas como Ercilia Costa, Berta Cardoso, Madalena de Melo, Armando Augusto Freire, Martinho d'Assunção ou João da Mata, entre outros artistas. Será, porem, a partir de 1950 que o processo de internacionalização do Fado se consolidara definitivamente, sobretudo através de Amália Rodrigues e Carlos do Carmo. Ultrapassando as barreiras da cultura e da língua, o Fado consagrar-se-ia definitivamente como um ícone da cultura nacional.









Nos palcos do Teatro, duas abordagens ao Fado ficariam célebres: o Fado dançado estilizado por Francis e o fado falado de João Villaret. Figura central da historia do fado, Herminia Silva consagrar-se-ia nas décadas de 1930 e 1940, nos palcos da revista, quer como actriz, quer como interprete de perfil excepcional.





Se desde o primeiro momento o fado marcou presença no teatro e na radio o mesmo ira acontecer na sétima arte. De facto, se o advento do cinema sonoro foi marcado pelo musical, o cinema português consagrou ao Fado particular atenção. Ilustra-o bem o facto do primeiro filme sonoro português, realizado em 1931, por Leitão de Barros, ter por temática as desventuras da mítica fadista Severa.








A actividade crescente das estações emissoras de radio conduziu à incorporação do Fado na sua programação, conquistando gradualmente novos públicos, mesmo na rede de emigração na Diáspora portuguesa com transmissões a partir dos Teatros, emissões em directo de Casa de Fado, ou apresentações ao vivo nos estúdios. A partir de 1935 a Emissora Nacional, com monopólio estatal e meios sem paralelo no sector vinha impor uma nova dinâmica à radiodifusão.






E se a difusão radiofónica permitira ultrapassar barreiras geográficas, levando a milhares de pessoas as vozes do fado, depois da inauguração da Radio Televisão Portuguesa - em 1957 - e, sobretudo, com a sua difusão, à escala nacional, em meados da década seguinte, os rostos dos artistas passariam a ser divulgados junto do grande publico. recriando em estúdio ambientes ligados às temáticas fadistas, a televisão transmitiria regularmente, em directo, de 1959 a 1974, programas de Fado que contribuiriam de um modo inequívoco para a sua mediatização.








Nos anos 1960 e 1970 o Fado começou igualmente a atrair muitos dos melhores poetas eruditos portugueses, a par com uma forte tradição viva de poesia popular.
A partir do decisivo contributo do compositor Alain Oulman, chegavam ao Fado, na voz de Amália Rodrigues, os poemas de autores com formação académica e obra literária publicada como David Mourão-Ferreira, Pedro Homem de Mello, José Régio, Luiz de Macedo e, mais tarde, Alexandre O'Neill, Sidónio Muralha, Leonel Neves ou Vasco de Lima Couto, entre outros.





No século XX o Fado converteu-se no mais popular género de canção urbana em Portugal e é reconhecido pela maioria das comunidades portuguesas como um símbolo da identidade cultural, no seu conjunto. A sua disseminação através da emigração portuguesa para a Europa e para as Américas, e mais recentemente através dos circuitos da World Music, tem vindo também a reforçar, no plano internacional, a percepção desse seu papel identitario, conduzindo ao mesmo tempo a um processo crescente de trocas interculturais com outros géneros musicais.






Nas duas ultimas décadas o Fado tem-se revelado um campo de criatividade cada vez mais aberto, em que os elementos tradicionais se combinam com novas influências, tanto nacionais como internacionais. Após um período de aparente desinteresse das gerações mais jovens, nas décadas de 1970 e 80, o Fado revela hoje sinais de uma vitalidade renovada, com um numero significativo de cantores, instrumentistas, compositores e poetas jovens a surgirem todos os anos.
O seu processo de interação multicultural intensa com outras tradições musicais, que em muitos aspectos vem apenas expandir uma tendência que estava já presente no seu seio ao longo de toda a sua historia, reafirma-o como uma tradição cultural viva.








Sources: Institut Camoes/ Fondation Calouste Gulbenkian


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